UERJ e a Perda de Conhecimento no Carnaval da Mangueira

Fonte: Mangueira                                                                                                                                          

É mais do que louvável a participação de professores e pesquisadores da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) em trazer para o carnaval carioca, através do Samba da Mangueira, a ancestralidade e a lamentável perda e destruição do conhecimento africano por parte dos países ricos do mundo ocidental, a serviço de um capitalismo selvagem.

Se Sócrates é visto como o pai da filosofia, Orúnmìllà, na África, é visto como o pai da sabedoria. O que sabemos do conhecimento e sabedoria de Orúnmìllà? Nada. Tenta-se mostrar que se trata de um conhecimento esotérico, limitado a atividades religiosas num processo de se falar diretamente com Deus como um médium.

Contudo, a sabedoria de Orunmilá era racional, baseado em previsões, através do uso da matemática e leis de probabilidade. Ao contrário dos que se restringem às atividades religiosas, a busca do conhecimento de Orúnmìllà, incluiam e ciência e filosofia  como parte de sua escola de pensamento.

As informações são de que Orúnmìllà nasceu 500 a.c., embora não se tenha informações sobre seu lugar de nascimento. Tanto Sócrates quanto Orunmilá nunca escreveram nada, mas foram seus discípulos que expuseram o pensamento deles, sendo o de Orúnmìllà escrito em língua nativa africana.

Lamentavelmente, a maioria dos estudiosos africanos contemporâneos ignora o fato de que a organização dos cidadãos em pequenas unidades para facilitar o controle é um dos legados africanos para o mundo. Um exemplo deste legado está na Bíblia, quando um sacerdote da Núbia (Sudão) instruiu Moisés, seu genro e único juiz de Israel, a dividir a sociedade em distritos, níveis locais e estaduais para uma administração pública mais conveniente e eficaz [Êxodo 18:19-22].

A maioria dos estados democráticos do mundo atual adota esse sistema sem reconhecer sua origem ou sua existência em diversas sociedades tradicionais africanas, muito antes de sua introdução nas teorias políticas ocidentais. Além disto, os líderes africanos, após a independência, optaram pelos arranjos políticos menos democráticos e machistas do Ocidente.

Comenta-se que a singularidade da filosofia africana possa advir de um maior senso de unidade do homem como um ser integral, do homem com seu semelhante e do homem com a natureza e Deus.

A filosofia ocidental tendeu a criar dicotomias artificiais entre o homem conhecedor e o homem agente, entre o sujeito e o objeto, entre a liberdade do indivíduo e as exigências do bem comum da sociedade, entre o bem-estar do homem dominado pela tecnologia e o respeito e a harmonia com a natureza. Essas dicotomias cresceram na filosofia ocidental ao longo dos séculos e, como cracas em um navio enferrujado, dificultam o progresso e são difíceis de remover.

Em termos da ciência e tecnologia vale mencionar o que aconteceu no campo da medicina. A cesariana tem sido praticada em muitas sociedades ao redor do mundo desde os tempos antigos. Seu primeiro procedimento registrado na Europa ocorreu em 1610. Devido ao alto risco de mortalidade, a taxa caiu para 21% em 1995.

Robert Felkin, MD., (1853 - 1926), formado pela Universidade de Edimburgo, documentou sua primeira experiência pessoal com a prática da cesariana em Kahura, Uganda, em 1879. Seu testemunho final é que tanto a mãe quanto o bebê sobreviveram! Felkin não tinha nenhuma ideia sobre quando essa prática científica começou em Uganda ou em outras sociedades da África pré-colonial.

O que é inegável, no entanto, é que esses cirurgiões africanos não foram treinados no Ocidente! Esta e outras façanhas científicas refutam a hipótese sobre o suposto atraso dos antigos pensadores africanos no desenvolvimento da ciência. Assim sendo, a tecnologia científica não só era praticada, como também reconhecida como um aspecto indispensável do desenvolvimento.

Infelizmente o mundo hoje é carente do conhecimento das mitologias antigas, em muitos casos destruídas pelas religiões. A maioria dos estados democráticos do mundo hoje adota esse sistema sem reconhecer sua origem ou sua existência em diversas sociedades africanas tradicionais, muito antes de sua introdução nas teorias políticas ocidentais.

A UERJ, enquanto Universidade popular, abre um leque de possibilidades junto da Mangueira e do protagonismo de mulheres negras para resgatar o conhecimento científico e tecnológico de nossos ancestrais africanos, num momento em que a Filosofia Capitalista permanece um dos maiores anacronismos ocidentais, uma praga que atrasa a evolução de uma ordem mundial civilizada e saudável, levando o mundo de volta à era do primitivismo social.


 

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